O racismo no Brasil é sentido desde a infância

O racismo é um problema histórico no Brasil. Mesmo sendo crime, ele está presente nos mais diversos ambientes. Se pararmos para refletir, precisar explicar que é necessário combater o preconceito racial – 130 anos depois da abolição da escravatura – parece algo absurdo. Mas não é. Existem diversos tipos de racismo que assolam as pessoas todos os dias, desde a infância.

Para levar você, leitor, a refletir sobre o tipo de situação que os negros vivenciam durante toda a vida, pedimos pelas redes sociais que algumas pessoas nos contassem qual foi a primeira vez em que elas sentiram na pele o racismo. Como já era de se esperar, tivemos muitas respostas daqueles que preferem não relembrar esses momentos. O preconceito racial gera traumas profundos e nem todos estão prontos para colocar o dedo nessa ferida e expor situações que fizeram tão mal.

Preconceito Racial

Mas tivemos também a experiência de ouvir relatos bastante indigestos. Separamos aqui dois depoimentos que são a prova de que ninguém está livre de ser vítima do preconceito racial no Brasil, nem mesmo as crianças. Para preservar os entrevistados, preferimos omitir os sobrenomes.

Relatos de quem viveu o racismo de perto

“Quando eu tinha 6 anos de idade, eu era uma pessoa muito levada, gostava de brincar e não ligava pra nada! Até que um certo dia uma menina da minha sala me disse ‘você parece uma macaca, não para quieta’ e eu levei na brincadeira. Porém, isso foi se repetindo, ela falava que meu cabelo era ruim, parecia Bombril e isso cada dia foi me deixando mais chateada, até o ponto em que parti pra agressão e fomos parar na diretoria. A diretora perguntou o que havia acontecido e eu expliquei desde do começo. Ela me disse que isso era ato de bullying e que iria conversar com a mãe da outra criança. No fim, a mãe dela bateu nela na frente da sala, por outros motivos. Mas ela nunca mais falou comigo. Eu mudei de escola depois disso”, Sthefany

“Minha primeira memória de preconceito foi durante minha infância, a professora ia montar o mapa da sala e organizar todos os alunos. Ela colocou todo mundo em fileiras e o meu lugar ficava no canto da sala o primeiro lugar de uma fileira vazia seguida de uma segunda fileira vazia e depois o restante da sala, e eu estudei assim durante muito tempo, isolado do restante dos alunos. A professora falava que era pra eu me concentrar melhor sem me distrair conversando. Então eu achava normal. Eu tinha 8 anos”, Yuri.

Mais do que apenas “magoar” a criança naquele momento, o preconceito acaba trazendo graves consequências psicológicas. Um garoto que é afastado de toda a classe para que “possa acompanhar a aula” pode crescer com a sensação de que ele não é capaz de conviver com os demais. Uma menina que aos 6 anos é levada a um grau de estresse tão grande que parte para agressão física pode se tornar uma adulta que resolve os problemas por meio da violência.

racismo e homofobia nas universidades

E isso é só uma hipótese. Essas crianças crescem com baixa autoestima, são levadas a acreditar que não são bonitas, que precisam mudar o cabelo, que não são tão boas quanto aquelas que estão dentro do padrão de beleza de uma sociedade racista.

Abismo social

Quando pensamos nos adultos, a situação não fica melhor. Segundo o IBGE, do total de 16 milhões de brasileiros na extrema pobreza, a grande maioria é negra ou parda. Atualmente, 9,9% da população negra é analfabeta, ao passo que entre a população branca, este número é de 4,2%. O abismo social entre brancos e negros ainda é grande. E as desigualdades não param por aí, mesmo com 54% da população composta por negros e negras.

A questão fica ainda mais clara quando são colocados, lado a lado, os resultados da pesquisa de rendimento médio salarial. Também de acordo com o IBGE, em 2017 o rendimento médio de todos os trabalhos obtido pelos brancos foi de R$ 2.814, contra R$ 1.606 dos pardos e R$ 1.570 dos negros. No Brasil, a média salarial do negro chega a ser quase 50% menor do que a dos brancos.

Preconceito Racial

Baixa taxa de denúncias

Como então explicar a queda de 33% no número de denúncias ao Disque 100 recebidas em 2018? O “Disque Direitos Humanos” recebeu 615 denúncias sobre discriminação racial no ano passado, contra 921 notificações em 2017.

Acontece que as pessoas acabam se “acostumando” com as situações de racismo. Não que elas se tornem menos dolorosas ou menos frequentes, mas as vítimas hoje tendem a achar que nenhum tipo de ação surtirá efeito.

Quando se cresce em uma sociedade em que as crianças convivem diariamente com o preconceito, acaba se tendo um cenário como esse: adultos que se calam e estatísticas que não são fiéis à realidade.

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