Caso Fábio Assunção abre discussão sobre dependência química

Polêmica envolvendo Fábio Assunção abre espaço para o debate sobre a desumanização do usuário de drogas no brasil, os sinais da dependência química e a batalha contra o vício

Depois de virar alvo de piadas por sua constante luta contra a dependência química, o ator Fábio Assunção se viu na última semana em meio a mais uma polêmica. Uma música, que enaltecia o uso de álcool e drogas foi batizada em sua homenagem e ganhou o Brasil. Mesmo sabendo que o hit provavelmente ficaria grudado na cabeça dos brasileiros no carnaval, o global decidiu, em um ato de maturidade, não entrar com processos judiciais e aproveitar a situação para tocar num tema muito delicado: a necessidade de estender a mão para quem está em busca da cura para a adicção.

dependência química

Neste post você vai poder encontrar dicas, depoimentos e informação que podem ajudar as famílias que convivem com o vício a encontrar uma saída para essa doença tão cruel, que mata muitos brasileiros por dia e está cada vez mais perto de todos nós.

  • A luta de Fábio Assunção e a desumanização do usuário de drogas
  • A dependência química dá sinais
  • A árdua tarefa de conviver com o vício
  • Um relato de quem conseguiu vencer – e segue resistindo, um dia de cada vez

A luta de Fábio Assunção e a desumanização do usuário de drogas

“Antes de qualquer coisa eu preciso falar com as pessoas que passam pelo mesmo problema que eu. Cada um está nesse momento em um estágio, mas nossa natureza é a mesma. Eu não endosso, de maneira nenhuma, essa glamourização ou zueira com a nossa dor. Minha preocupação é com você que sente na pele a dificuldade e a complexidade dessa doença. Minha vontade é que você tenha sempre um diálogo aberto e encontre um lugar de afeto com sua família, amigos e com a sociedade brasileira e assim mereça respeito e direito a um tratamento digno”, Fábio Assunção

Foi com essa declaração, cheia de força, que o ator Fábio Assunção, que luta há 10 anos contra a dependência química e já estampou manchetes em todo o país por seus momentos de abuso, começou o pronunciamento sobre quais providencias legais pretendia tomar em relação à música que leva seu nome. E ele não está errado. Ao longo dos anos nos acostumamos a tratar a dependência química de famosos como algo corriqueiro, consequência do ganho rápido de dinheiro e do glamour envolvido em festas e viagens.

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Quem não se lembra do surto de Britney Spears em 2007? Imagens da cantora com os cabelos raspados e expressão de raiva circulam pelas redes até os dias de hoje. Ou então toda a carreira de Amy Winehouse? No auge de seu vício, quando a britânica de voz potente estava visivelmente fragilizada e doente, um bolão foi criado na internet para tentar prever a data de sua morte. Tudo isso é rapidamente espalhado pelo mundo. O que não se espalha é a consciência de que por trás de todas essas histórias públicas de excessos existem seres humanos doentes, que lutam dia após dia para conseguir sair de um caminho que, muitas vezes, não tem volta.

Na sociedade brasileira a desumanização do usuário de droga é uma realidade que não se restringe apenas a personalidades da mídia. A cada esquina, a cada rua, é possível cruzar com pessoas aparentemente sem identidade, que caminham pelas ruas em busca de mais uma dose, mais um trago, mais um pouco daquilo que se tornou o único refúgio para a fome, a dor e o abandono. Zumbis, viciados, moradores de rua. Muitos são os nomes dados para aqueles que perderam a briga contra a dependência química, mas eles são pais, filhos, irmãos, maridos, de outros seres humanos que muitas vezes já tentaram com todas as forças devolver a humanidade para seus entes queridos.

A dependência química dá sinais

“Jamais me passou pela cabeça censurar a arte do autor e seus intérpretes, mesmo quando vi o tamanho e o sucesso que a música alcançou. (…) Mas não censurar não significa que não existe aqui uma oportunidade de conscientizar. 15% das pessoas do mundo têm problemas de adicção. É muita gente sofrendo por não conseguir controlar suas compulsões e eu acho importante lembrar a todos que isso não está escrito na certidão de nascimento. Todo mundo começa do mesmo jeito. Achando que tudo bem. E pode não terminar tudo bem”, Fábio Assunção

De acordo com Relatório Mundial Sobre Drogas, lançado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2018, as mortes causadas diretamente pelo uso de drogas aumentaram 60% em todo o mundo, entre 2000 e 2015.

O relatório concluiu também que o uso de drogas e os danos associados a ele são os mais elevados entre os jovens em comparação aos mais velhos. No entanto, o uso de drogas entre a geração mais velha (com 40 anos ou mais) tem aumentado a um ritmo mais rápido do que entre os mais jovens. A dependência química é uma doença que não tem idade nem classe social. Mas é possível observar sinais de que o vício está presente na vida daqueles que amamos.

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Os principais indícios, de acordo com o SENAD – Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas, são:

  • Falta de motivação para estudar ou trabalhar;
  • Mudanças bruscas de comportamento.
  • Troca do dia pela noite;
  • Inquietação, Irritabilidade, ansiedade, cacoetes.
  • Perda de interesse pelas atividades rotineiras.
  • Insônia;
  • Olhos avermelhados, olheiras.
  • Necessidade cada vez maior de dinheiro.
  • Desaparecimento de objetos de valor ou dinheiro de dentro de casa ou de amigos e parentes;
  • Há alterações súbitas de humor, uma intensa euforia, alternada com choro ou depressão;
  • Há perda de sono ou apetite, insônia, intercalada com períodos de sono demorado, troca do dia pela noite;
  • Começa a se relacionar com amigos diferentes;
  • Fica mais descuidado com a higiene pessoal;
  • Muda o vocabulário, usando termos mais pesados;
  • Tem atitudes de culpa e reparação: agride os pais, chora, se tranca no quarto;
  • Passa noites fora de casa;
  • Apresenta apetrechos como espelhinhos, fósforos, canudos, usados para cheirar cocaína;
  • Aparecem entre os pertences restos de fumo, maconha ou crack;
  • Tem receitas de medicamentos ou caixas de comprimidos de psicotrópicos;
  • As roupas, os lenços ou as mantas têm cheiro forte de solvente;
  • Há vestígios de pó branco nos bolsos.

A árdua tarefa de conviver com o vício

“Foi pensando nisso que eu, minha equipe de comunicação e o corpo jurídico que me atende, decidimos entrar em contato com os meninos e tornar essa história em um ato propositivo de ajuda a quem precisa e de conscientização geral. 100% dos valores arrecadados com a música serão doados para instituições que vamos informar posteriormente como um ato irmanado entre quem sente essa dor e quem tem voz para ampliar a conscientização”, Fábio Assunção

Mesmo com a atenção aos sinais, é preciso ter em mente que conseguir tirar um ente querido do vício é uma batalha longa, que demanda dedicação diária e muita resiliência. A assistente de arte Maria Cristiana Poma, 47 anos, lutou ao lado do irmão Marcos Antônio durante muitos anos e presenciou de perto o difícil o dia a dia da dependência química.

dependência química

“Ele começou no uso de bebida alcoólica com o meu tio, ainda na adolescência. Trabalhava em uma oficina de tapeçaria e começou a beber, fumar cigarro e maconha. Passou parte da adolescência e da juventude sendo um alcoólatra”, conta Cristiana.

Aos 27, Marcos se casou, teve 4 filhos, mas não conseguiu se afastar das drogas. Alguns anos depois, a preocupação com o bem estar do pai, bem como o olhar atento às suas mudanças de comportamento, permitiu que o sobrinho de Cristina percebesse que o pai estava envolvido com entorpecentes mais pesados do que a maconha e o álcool. E nesse momento, as rotinas de internação começaram. Foram muitas, sempre em busca da tão esperada “cura” para o vício.

“Entre 2010 e 2011 descobrimos que estava usando crack. Meu irmão se entregou totalmente ao vício. Ele sumia, ficava fora de casa uma semana, um mês, voltava em um estado lastimável. A gente tentava mantê-lo em casa, mas era muito difícil. Antigamente existia muito preconceito contra a pessoa que usava drogas. Era taxado como vagabundo, sem vergonha. Foi quando conhecemos um grupo de apoio que abriu a nossa mente para o que é a dependência química: uma doença crônica, progressiva e fatal”, explica.

Após uma luta grande contra a dependência química, as sequelas físicas e psicológicas do abuso de entorpecentes apareceram. Marco se tornou esquizofrênico, bipolar, desenvolveu pneumonia e cirrose, além de outros problemas de saúde. “Ele faleceu em 2016, não está mais entre nós, mas eu tenho certeza de que hoje ele está melhor do que estava aqui em seus últimos anos de vida”.

Hoje mais consciente dos efeitos devastadores da dependência química, Cristiana alerta que é necessário que toda a família procure apoio e acredita que as pessoas próximas se tornam co-dependentes. “É necessário pedir ajuda, procurar grupos de apoio, para abrir a cabeça para o que é a dependência química e para enfrentar essa doença, que não é nada fácil”, finaliza.

Um relato de quem conseguiu vencer – e segue resistindo, um dia de cada vez

“Nós não somos super heróis. Cuide de você, cuide de quem você ama, cuide dos seus amigos nas festas. Seja responsável pelo todo. Lembrem que eu aqui respeito a zueira, amo a brincadeira, mas quero todo mundo bem, forte, feliz e consciente de seus atos e de sua vida. A luta é essa. Tamo junto”, Fábio Assunção

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No ensino fundamental foi onde tive o meu primeiro contato com as drogas, com aquela que abre as portas: a maconha. O contato ali foi, de certa forma, breve. Usei em torno de 1 ou 2 anos. Posso lembrar que me viciei muito rápido. Mas tive uma situação que me fez parar de usar quando eu tinha cerca de 12 anos. Aos 16, eu saí de casa para viver um amor, na rebeldia adolescente, e reencontrei as drogas. Meu companheiro foi usar cocaína e na hora que vi aquela substância nova, eu decidi experimentar.

Da cocaína para conhecer a droga que me levou ao fundo do poço, o crack, foi muito rápido. Eu experimentei o crack misturado com a maconha e o vício, posso usar essa palavra, foi instantâneo. Foi muito rápido, muito intenso e muito cruel. Em pouco tempo eu já não usava mais o “mesclado” e já usava o crack com a nicotina. Eu não queria mais a alegria que a maconha proporcionava. Passei cerca de dois anos assim, até que comecei a usar apenas o crack. Foram muitos anos de muito sofrimento. Várias vezes eu dizia que queria parar de usar. As pessoas não acreditavam em mim, nem eu mesma acreditava em mim, porque acabava de dizer que queria parar e já usava na sequência. Mas todas as vezes foram sinceras. Era muito difícil, eu me sentia muito sozinha, sentia falta de alguém que me mostrasse alguma direção. Procurei ajuda religiosa, clínicas, mas a dependência química era mais forte e muitas vezes eu caminhei em direção à boca.

Como comecei com uma droga pesada relativamente muito nova, não posso dizer que perdi muita coisa material na vida, sinto que deixei de conquistar. Mas perdi coisas que não tem preço. Tive um aborto espontâneo, aos três meses de gestação, e um tempo depois dei à luz uma menina, que nasceu de cinco meses. Ela nasceu, mas não tinha os pulmões formados e partiu. Essa com certeza foi a primeira vez que morri. Eu tinha total consciência de que aquela criança estava partindo por conta do uso dessa substância.

Depois disso, eu engravidei novamente. Com muito medo, porque sabia que não ia conseguir parar. Eu procurei ajuda, mas o vício era muito forte. Meu filho nasceu prematuro, de 7 meses, com 1,6kg, teve graves crises de abstinência. E essa parte dói pra caramba. No nascimento dele passei em torno de 30 dias internada no hospital, não me deixavam sair porque achavam que eu ia abandonar meu filho, achavam que eu ia vende-lo. Mas quando olhei pra ele pela primeira vez, tudo o que pedi pra Deus foi para conseguir parar. Eu amava muito aquele bebê e tudo o que mais queria era conseguir ser mãe dele.

Mas não consegui parar. É difícil as pessoas entenderem, mas na verdade o meu amor pelo meu filho era tão grande, esse dilema era tão cruel, que quando ele tinha 4 meses de vida eu me joguei de um prédio, do terceiro andar. Antes de me jogar, falei pra Deus que eu precisava acabar com aquele sofrimento. Que morrer era minha única saída. Mas que se eu não morresse, ia sair dali e não ia mais voltar. Eu fiz isso lúcida.

No momento em que caí, já deixei de sentir as pernas. Os médicos não acreditavam que eu voltaria a andar. Mas pedi muito pra Deus me deixar andar de novo, dizia que ia parar, ser uma boa mãe. No hospital eu recebi muito amor. E eu sempre fui muito carente de carinho, atenção. Quando consegui voltar a sentar, o médico chorou de emoção. Saí do hospital andando.

Isso seria suficiente para me fazer parar, né? Mas não foi. Eu recaí. E essa recaída durou mais três anos. Cavei mais fundo do que já estava. Atingi níveis que ninguém jamais esperava. Fiquei em situação de rua, cheguei a passar 7 dias sem comer, só usando drogas. Conheci um homem nesse tempo, que financiou todo meu uso. Eu cheguei a pesar 37kg.

Foram seis anos de uso de crack. E em todo esse tempo eu sempre quis parar. Mas a compulsão, essa doença chamada adicção, é muito forte. Mas um certo dia, em uma instituição religiosa, algo que não sei explicar funcionou. Olhei nos olhos desse homem que morava comigo e disse “eu vou me livrar de você e vou me livrar dessa droga”. Em uma semana, consegui sair daquela casa. Nesta mesma instituição religiosa, uma pessoa me apresentou um grupo de ajuda mútua. No começo não consegui me encaixar, achava que não tinha a ver com aquelas pessoas, mas continuei indo. E foi assim que eu parei de usar drogas.

Pra conseguir parar, não tive um único fator. Passei anos esperando que alguém pegasse na minha mão e me levasse para uma clínica, mas isso não ocorreu. Mas hoje entendo que mesmo que tivessem feito, isso não ia funcionar. Porque foi a soma de tudo o que vivi, todas as minhas dores, a fé que eu adquiri em algo que fosse maior do que meu vício e o círculo de apoio que encontrei nesse grupo que fizeram com que eu conseguisse vencer.

Eu não tenho vergonha nenhuma da minha história. Não carrego como um exemplo, porque não é exemplo para ninguém, mas é a minha história e eu não tenho como muda-la. E hoje sempre que eu puder usar a minha experiência para ajudar nem que seja uma única pessoa, já valeu a pena viver.

Hellen Alves, 31 anos, 7 anos longe das drogas.

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